sexta-feira, 17 de maio de 2013

Bonde das Maravilhas, a sexualidade da mulher negra e a hipocrisia nossa de cada dia

Há algum tempo, tenho visto algumas repercussões nas redes sociais extremamente ofensivas e incômodas em relação a um grupo de jovens dançarinas do Rio de Janeiro, o chamado Bonde das Maravilhas. As meninas, adolescentes na faixa dos 13 aos 20 anos de idade, vieram a público mostrar o inacreditável. Danças tão cheias de contorcionismos que confesso que a primeira vez que assisti ao vídeo, julguei ser humanamente impossível se equilibrar na nuca para dançar. Tanto que vi outras vezes e, boquiaberta, não conseguia crer, enfim.

Mas o que tem causado tanta polêmica, se assim posso dizer, na mídia, não são os contorcionismos dançantes que as meninas do Bonde das Maravilhas apresentam ao seu público, e sim a estranheza social de ver garotas jovens, bonitas, negras e periféricas dançando e cantando de modo tão singular.

Fiquei a me perguntar por que o ataque ao grupo tem sido tão severo. Por que essa antipatia mordaz às garotas?



Revirei e retirei do fundo do baú alguns grupos que fizeram sucesso com danças sinônimas ao do Bonde, o que não foi tão necessário, pois temos mulheres que dançam funk e põe seus bumbuns pra cima sem causar maiores estranhamentos por parte do público hoje. Mas creio que vale a pena relembrar de alguns.

Suponho que muitos ainda se lembrem do grupo É o Tchan!. O grupo ganhou fama e notoriedade em meados da década de 1990 com danças tão “insinuantes” e “pornográficas” executadas pelas dançarinas Carla Perez e Scheila Carvalho quanto as do Bonde das Maravilhas.

As dançarinas do É o Tchan! seguravam e amarravam o tchan ao seu bel prazer, e nem por isso ninguém as levou ao ministério público. Lembro que Gugu Liberato, no seu antigo programa Domingo Legal, explorou bastante a imagem do grupo e ainda criou um quadro chamado “Banheira do Gugu”, em que mulheres ficavam praticamente nuas em rede nacional e num horário em que as crianças ainda estavam na sala.


Até aqui, ninguém disse nada. Por que será? Perceberam a diferença?

Há também um grupo mais recente de funk, também do Rio de Janeiro, chamado Gaiola das Popozudas, formado só por mulheres e liderado pela funkeira Valesca Popozuda, que trazem a público ritmos dançantes e eivados de insinuações – do tipo “balança o rabo” e “late que eu tô passando” – e nem por isso caiu no desgosto popular. As garotas do referido grupo são mulheres brancas. Elas trazem consigo o patrimônio da cor, o que por si só é um fator extremamente favorável na busca pelos quinze minutos de fama na mídia.


Ah, tem mais uma figurinha cativa. Lembram-se da Gretchen? Lembram o sucesso que ela fez na década de 1980 com o Conga Conga, que inclusive a atual novela das nove remasterizou para a personagem de sua filha, Thammy Miranda? Pois bem, Gretchen ganhou fama e notoriedade com danças insinuantes para a época (afinal, estávamos falando de década de 1980, período em que o Brasil vivia os momentos finais da ditadura). E como os purismos do século XXI condenam o Bonde das Maravilhas, esse é um aspecto que vale lembrar. Não só fama e notoriedade na mídia alavancaram a carreira da cantora e dançarina Gretchen, assim como ela ganhou prêmios e mais prêmios com essa dancinha insinuante e com sonoplastia puramente sexy hot, porque era assim que Gretchen cantava. Parecia que estava gozando!



Não condeno nenhuma dessas cantoras e/ou dançarinas. Só parto do princípio que minha mãe desde cedo me ensinou: “o pau que dá em Chico tem de ser o mesmo que dá em Francisco”. Se for pra escrachar tem de ser geral, e não fazer o que essa mídia podre e asquerosa está fazendo, dando de cacetada no grupo do Bonde das Maravilhas. E o pior de tudo, é a participação popular de uma gentinha hipócrita nas redes sociais.

E pra não dizer que sou insuportável (porque sou mesmo), a mídia tem jogado pra debaixo do tapete as Panicats, assistentes de palco do Programa Pânico na TV.

Isso sem contar a Anitta, outra jovem cantora de funk que largou a faculdade de administração e um estágio numa transnacional pra seguir seu sonho de virar artista e ficar famosa. Aos vinte anos, ela é sucesso nacional. Sua trajetória artística e história de vida ganharam os louros da Rede Globo, exibido naquela medíocre revista eletrônica semanal.



Ah! E ela sabe dançar o quadradinho, só não o faz, pois tem de parecer fina. Quer dizer que Anitta largou a faculdade pra seguir um sonho de menina, ao tempo que as que são malhadas atualmente são piriguetes, burras e futuras prenhas solteiras? Muito bom. Adoro o contexto em que Anitta se insere, frente à análise que a mídia perfaz.

Difícil levantar esse debate sem trazer à tona os aspectos sociais e raciais imbricados nesse bojo teórico reflexivo que envolve o Bonde das Maravilhas.

Não há como não falar da sexualidade da mulher negra sem atentar aos detalhes sutis que emanam dos ataques ao grupo nas redes sociais. Pois, falar que fazer o quadradinho de oito traz como consequência direta uma barriguinha de nove é o extremo do julgamento que se possa deliberar sobre mulheres jovens negras e moradoras de periferia.




Afinal, só mulher preta e pobre transa casualmente e engravida nesse país, e ainda por cima tem o sacrilégio de tornar-se mãe solteira? As brancas de classe média e de boas famílias também fazem isso, oras!! Maria Rita, a filha da saudosa musa Elis Regina, transou casualmente sem o menor compromisso que uma mulher branca do nível social que ela representa possa “merecer”, e engravidou duas vezes, diga-se de passagem, de homens diferentes.

Volto à pergunta. Por que ninguém malha Maria Rita? Porque ela é branca, rica, canta MPB e não mora na favela? Ah, e mais, porque fora alfabetizada? Sim, porque fazer quadradinho de oito é impossível já que se fosse quadradinho de oito não seria quadradinho e sim octógono. Total coisa de quem não concluiu sequer o ensino primário. Não é o que proferem por aí? Ou só eu que estou vendo?

Quadradinho Octógono


Ou melhor, as meninas do Bonde “emprenham” cedo porque o único destino de meninas pretas, pobres e faveladas é “abrir o rabo pra parir”, ao tempo que branquinhas de classe média alta, ricas e famosas enfileiram um filho atrás do outro e muitas vezes são mães solteiras porque curtem uma “produção independente”, ou até mesmo porque “são férteis”. Faça-me o favor!

Mulheres brancas de classe média têm filhos “do primeiro e do segundo relacionamentos”. Mulheres pretas e faveladas têm filhos “com um e com outro”. Já perceberam isso?


Se for pra jogar na masmorra o Bonde das Maravilhas, tratemos de assegurar o mesmo valhacouto para todas as outras que as antecederam nesse processo provocativo e pornográfico.


Não estou deste modo a defender as representações pejorativas que possam surgir desse movimento musical e a representação que a mulher negra, por sua vez, está cerceada. Só defendo o direito dessa mesma mulher negra não ser condenada por suscitar ações que outras mulheres brancas, ricas e com formação escolar reproduzem sem passar pelo mesmo crivo midiático ao qual se expõe.

No mais, creio que muito ainda se tem para discutir. Isso aqui é só uma provocação.

Fonte: Escrevivência





9 comentários:

nessadamatta disse...

Gostei muito do seu post e concordo com várias coisas que disse. o crivo social está justamente porque elas enquanto mulheres negras são rotuladas pelos estigmas de uma sociedade branca, masculina. escravocrata e preconceituosa. A grande questão é que as mulheres negras sempre lidaram bem com sua sexualidade, com o seu corpo, no entanto, danças, ritmos, cantos e a cultura que produzimos como protesto contra as camisas de força são sempre cooptadas, por uma mídia cujo o discurso é estabelecido a partir dos padrões de quem está autorizado a falar ou a fazer.Hj para cantar samba deve ser branco, para ser passista, artista de televisão branca, do candomblé branco e intelectual, entre os bondes das maravilhas e a patricinha paulista da moda - existem inúmeras diferenças. Na realidade nada disso é novo - a vanguarda em se tratando de Rj está que a cada dia reinventamos esta Cidade.Continuamos ditando moda, mesmo que sejamos alijados de todos os bens sociais, oportunidades. O preconceito contra a mulher negra é muito grande assumimos duas categorias, segundo a forma branca de pensar: negras gostosas para "fornicar", negras serviças para "trabalhar", nesta sua reflexão fico feliz que a cada dia nos superamos!Obrigada a todas as mulheres negras que circulam na Cidade, imprimindo uma outra lógica, diferente da impressa a nossos corpos, que nunca, jamais serão docilizados, apesar das imposições! Vanessa Soares

Jama Libya disse...

O Racismo do Flamengo e da Caixa Economica Federal contra a mulher negra afro brasileira. O Flamengo é o time de futebol que tem a maior torcida do Brasil, o que mais se identifica se com a raça negra afro-brasileira, o rubro negro sempre teve em seu plantel jogadores que são sempre em sua maioria são afrodescendentes. O Flamengo também é o time que teve o maior número de técnicos afros, assim como seus ídolos, principalmente a festa da arquibancada e a forte presença negra junto à todas raças num maravilhoso espetáculo que o Mundo inteiro conhece, mas lamentavelmente os dirigentes flamenguistas tiveram um comportamento preconceituoso e discriminatório, realmente racista. Isto ficou explícito na apresentação do novo patrocinador a Caixa Econômica Federal com duas belas modelos uma garota loira e uma branca, apresentando o uniforme do Flamengo com a logomarca da Caixa Econômica. Por que estes acham que só este padrão de beleza é o ideal para representar o "Imaginario Brasileiro"? Quando exclui cruelmente a mulher negra, parda e as afros brasileiras, que segundo o IBGE são quase 70% da população feminina brasileira do Brasil. Nosso país vai sediar a Copa do Mundo 2014 e Olimpiadas2016, onde comete-se uma gafe criminosa, porque no " Brasil Racismo é Crime" não so contra a mulheres, mas sim contra as crianças que são preteridas desprezadas e desprestigiadas é o exemplo "uma prova cabal deprimente" promovidos visivelmente pelos dirigentes do Flamengo, o seu presidente Eduardo Bandeira de Mello, o vice-presidente de marketing de Luiz Eduardo Baptista e a Caixa Econômica Federal .No dia 13 maio vai completar 125 anos da Abolição da Escravatura no Brasil. O país do samba , futebol e Carnaval onde os reis são negros, que dão destaque especial dos brasileiros para o Mundo, infelizmente em nosso país a mulher negra é excluida margilizada e até humilhada, com inumeros relatos na midia no mercado de trabalho. O que as restringe, principalmente as jovens, recentemente o Flamengo e a Caixa Economica Federal que são patrimonios nacionais fizeram e cometeram um Genocídio Étnico, reafirmando o Holocausto do povo afro brasileiro e contra fatos não há argumentos, houve um Homicídio culposo, mas com efeito de Homicídio doloso, porque estiguimatiza o conceito de inferioridade e padronização de beleza brasileira e gostos antagônicos a comunidade negra afro brasileira, esta segregação racial e a Instituição cruel perversa da elite e sua Vassalagem e não há ressalvas as tiranias da peseuda democracia que mandam e desmandam, desrespeitam e ignoram o bom senso e a razão, bradam a receita "Não Somos Racistas" dizendo "que não existem raças", mas por que só os negros e negras são discriminadas? O Flamengo e a Caixa Economica Federal deveriam no mínino um pedido de desculpas, por respeito e solidariedade as mulheres negras afro brasileiras, que juntos as brancas loiras e amarelas fazem parte desta nação Patria amada Brasil! ORGANIZAÇÃO NEGRA NACIONAL QUILOMBO O.N.N.Q. 20/11/1970 quilombonnq@bol.com.br

Paula disse...

nessadamatta e Jama Libya,

Gostei do comentários de vocês. Muito bacana.
Mas gostaria que deixassem esse comentário lá no Escrevivência (http://escrevivencia.wordpress.com/2013/05/17/bonde-das-maravilhas-a-sexualidade-da-mulher-negra-e-a-hipocrisia-nossa-de-cada-dia/),pois assim o debate lá tenderá a acrescer.
Abraço.
Paula (autora do post e do blog)

otacilio favero de souza disse...

Eu realmente, estou apaixonado pela fibra, pela audácia, pela coerência, maturidade e sobretudo pela profundidade dessa mulher para tocar nas questões mais profundas e encobertas, no Brasil, o racismo aberto. Minha querida, falar da alegria que estou sentindo nesse moemnto, por saber que ainda temos muloheres como você é muito forte

Suzana Matias disse...

Hummm... Só que não, hein!
Acho que vc está levando uma discussão de gênero para uma discussão infundada sobre raças.

Panicats são tão marginalizadas quanto o Bonde das Maravilhas, são chamadas de vadias, de mulheres pra usar, de burras e toda a sorte de machismos possíveis.
Aliás, mulheres rebolando e a associação a burrice, vulgaridade e inferioridade é o que há de mais antigo em nossa sociedade.

Não consigo ver o Bonde das Maravilhas como vítima, num mundo onde Carla Perez era sinônimo de burrice, onde Gretchen e Rita Cadilac eram como cartazes em letras garrafais escrito SEXO FÁCIL, onde Tiazinhas e Feiticeiras eram lindas e MUDAS.

Aliás, quem lembra de Gabriel - O pensador e seu sucesso "Loira Burra"?

No passado a internet e as redes sociais não estavam ai para alardear o escárnio de homens e mulheres para com as rainhas do rebolado. O problema é que hoje em dia há uma glamourização desse passado, como se antes ninguém falasse mal destas mulheres. É CLARO QUE FALAVAM!

Aliás, antigamente a rádio peão e as velhas da fofoca faziam as vezes da internet e isso, é claro, não chegava nem perto da proporção da internet.

De qualquer forma, me lembro bem do período em que dançava axé e como todas as mães e pais das minhas amigas achavam que eu era vadia por conta disso.

Então, dizer que isto é um problema racial é um pouco demais.
No máximo, podemos dizer que se trata de um problema social chamado MACHISMO.

Richard Christian disse...

Se o problema é apenas de machismo, pq a também funkeira da era da internet, porém branca Valeska Popozuda não aparece como sinônimo de analfabeta?

é o bom e velho feminismo branco fazendo de conta que o racismo não existe.

Suzana Matias disse...

E quem disse a você que ela não aparece assim?
Pra muita gente Valeska é sinônimo de vadia, mulher burra, que só serve pra transar.

Suzana Matias disse...

Ah... e não existe "feminismo branco", visto que o feminismo é um movimento que não exalta a mulher, mas sim a coloca como detentora de direitos iguais aos homens.

Suzana Matias disse...

Ahhh... FEMINISMO NÃO É O CONTRÁRIO DO MACHISMO!

O machismo supõe a SUPERIORIDADE do homem sobre a mulher, já o feminismo propõe o direito a igualdade entre os sexos.

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